Presto meus serviços como design gráfico para o jornal Folha de Mayrink. Ele circula na cidade e região todo sábado, mas é diagramado na sexta-feira.
Toda sexta, portanto, é pra lá queu vou. Enquanto as pessoas normais estão voltando de sua jornada semanal de trabalho, eu viajo. Já perdi eventos e shows maravilhosos, como o do Marcelo Camelo e Apanhador só, só pra ilustrar.
A passagem intermunicipal de Sorocaba a Marinque custa atualmente $3,55. Tenho um local em casa, alguns potes de sorvete, no qual eu e Jô costumamos depositar nossas moedas. Então antes de sair de casa, eu pego o dinheiro contado para a passagem. É notável a felicidade do cobrador (a) quando dou o dinheiro exato do bilhete. Não me custa nada, facilita o trabalho alheio e me deixa feliz. Vejo a maioria das pessoas pagar o embarque com notas grandes. $20, $50, teve um que deu uma nota de $ 100,00 certa vez. Para tirar uma passagem. Penso que a falta de percepção das coisas simples como esta é grande responsável por este mundo de extrema competição em que vivemos, onde as pessoas não pensam, nem minimamente, no próximo. A necessidade individual vem em primeiro, em segundo, em quinto e em último lugar. Não há tempo de pensar a respeito dos outros e do mundo que nos cerca.
Este causo aconteceu na noite da sexta feira, 10 de fevereiro.
Havia terminado meu trabalho eram pouco antes das 10 da noite e lá fui eu correr para o ponto de ônibus para pegar o da hora cheia. Á partir das 7 da noite, este ônibus rareia, é de hora em hora. Se eu perder o das 10, tenho de ficar mofando até as 11 no ponto.
Há algumas coisas que me irritam profundamente: trânsito congestionado, homem sem palavra, mulher surtada e perder tempo. Cozinhar uma hora num ponto de ônibus, numa sala de espera ou onde quer que seja simplesmente me deixa transtornado.
Me despedi e fui em direção ao ponto, bem em cima da hora. Abri a carteira e vi que a nota mais baixa que eu tinha era de $ 20,00. Mesmo correndo o risco de perder o ônibus, para comprovar minha teoria de que felicitar a vida alheia se baseia em coisas extremamente simples, voltei correndo até o escritório do jornal e perguntei a minha chefa se ela podia me trocar o dinheiro. Enquanto trocávamos, ouvi o roncar dum busão passando pela rua, mas ali passam tantos que certamente não seria o meu. E porque não? Porque eu não “merecia” perder o ônibus né? Afinal, voltei ao escritório numa ação que beneficiaria um outro alguém, numa ação exclusivamente altruísta.
Peguei os trocados e corri para o ponto, havia apenas um senhor sentado no banco. Isso é bom sinal, pensei. Perguntei do ônibus para Sorocaba, ele respondeu que tinha ACABADO de passar um. De repente, todo aquele sorriso entusiasta desapareceu do meu rosto:
- O senhor tá brincando né?
- Não…
- Tem certeza????
- Tá sentindo o cheiro da fuligem?
- Sim…
- É dele…
- …….
Emputeci. Simplesmente não acreditei. Era muita burrice! Perdi o ônibus pra facilitar o troco! Onde é que eu tava com a cabeça? Putaqueupariu vou ficar aqui até 11 horas da noite…Que ideia de merdaaaaaaaaaaaa! Otário! Energúmeno! Imbecil!
Os xingamentos duraram até acabarem os estoques.
Maldisse a mim, a vida e o mundo. Toda minha convicção de que fazer o bem é elevar o espírito, todo aquele papo lennonmaccartiniano de que “no fim o amor que vc dá é igual ao amor que vc recebe” é lorota da grossa. Que o conceito de causa e efeito aprendido no budismo, do qual baseio minha vida, pode não funcionar como achei que sim. De repente, tudo aquilo o que mais acreditava perdeu o sentido. A ingenuidade da minha postura me fez chorar de ódio. A todos que conto este causo, quando chego nesta parte da história batem na testa, concordam dizendo: – Você leva essas coisas muito a sério, João! O mundo não é assim! Acorda pra vida!
O tio do ponto já havia embarcado para seu destino. Eu estava só. Ao longe, bem longe, uns dois quarteirões, na avenida, um carro com o pisca alerta ligado tentava ligar o motor. Continuei na minha, afinal, cada um tem os seus próprios problemas. Depois de um tempo, olhei novamente e o carro continuava lá, agora com o pisca alerta desligado. Um homem, possivelmente o condutor, tentava empurrá-lo. Em vão. A avenida é uma reta. Estava deserto. Pela primeira vez, me passou o pensamento de ir ajudá-lo de alguma forma. Fiquei torcendo para que o carro pegasse, assim não precisaria me envolver com a situação. Mas a coisa não ia. Pensamentos como o de que o cara poderia achar que eu iria roubá-lo, sequestrá-lo ou esquartejá-lo. Que eu iria me aproveitar da situação para tirar vantagem de alguma forma. Poderia achar que eu quisesse alguma sacanagem sexual. Ele poderia ser, basicamente, um puta cuzão. E eu não tava afim de ouvir merda aquela hora da noite com aquele humor. Já tinha problemas suficientes.
Ai liguei o botãozinho do “foda-se” e fui em direção ao carro. Aí passou o trem, parei, encostei no poste, o barulho me confundiu e não sabia se a porra do carro tinha pegado ou não. O trem passou, o carro ficou. Continuei caminhando em sua direção. Cheguei próximo, ele abriu o vidro da janela. Era um cara novo, de no máximo 40 anos. Estava sozinho. Perguntei:
- E ai amigo, precisa de uma mão ai?
- Pow cara, não sei o que tá acontecendo. Eu coloquei um pouco de gasolina, não sei se tá faltando. Parou do nada! Tava pensando em jogar ele na gambela ali na frente e ver se ele pega.
- Demorô vâmo ai…
Começamos a empurrar o carro na avenida. A descida ficava próximo ao ponto onde eu esperava o ônibus, a dois quarteirões dali.
- Pra onde vc está indo? Perguntou ele.
- Áh cara, eu não sou daqui, to indo para Sorocaba…
- Áh tudo bem…é que eu pensei que…
- Nem esquenta.
Botamos na descida e ele foi. Deu de mão agradecendo e embarcou na caranga. Sentei no ponto e observei ao longe o carro descendo vagarosamente, sem pegar. Pensei que agora o cara tava realmente fodido, com o carro parado já no final da descida. Não deu certo, mas havia feito a minha parte.
Continuei amaldiçoando a minha situação. Merda de vida.
Uns minutos depois, vejo do outro lado da avenida o dito carro parado. O cara desce, o mantém ligado (claro, de bobo só eu nesta história), atravessa a mão dupla e vem até o ponto de ônibus.
- E aí deu certo? – pergunto
- Deu cara! Ele foi sem pegar até o finzinho da avenida….já tava desesperado..mas quando eu desisti, ele pegou!
- Porra que bom, fico feliz.
- Cara…(de repente ficou pensativo…olhou para baixo…coçou o queixo…respirou fundo e olhou pra mim novamente)..quando eu fiz faculdade, tinha um professor de história que disse uma coisa certa vez da qual eu nunca esqueci…ele disse que você nunca deve sair da sua casa se não for para fazer a diferença na vida de alguém…
Estendeu a mão a mim e disse:
- Parabéns…hoje você fez a diferença na minha vida….
Se despediu, entrou no carro e sumiu no mundo. Fiquei mudo. Sem ação. Não demorou muito, um minuto talvez, começou a chover. Primeiro pouco, depois muito, até virar uma tempestade. O vento a trazia de lado até o meu rosto, saía pelo ladrão das casas e molhava meu tênis, cobrindo a lombada a minha frente. Estava furiosa. Passava das 11 da noite, numa longínqua cidade, molhado, solitário…mas a tormenta chegou um pouco tarde.
Naquele difícil momento, minha alma já estava lavada.


Todos que comentaram algo deste filme comigo diziam: “Nossa demais!” “Surpreendente!” “Você nunca vai imaginar o final!” Os comentários que li na internet também enalteciam a obra de Martin Scorsese: Fantástico! Obra prima! Melhor filme dele em tempos!


Caos. Quem mora numa grande cidade, ou uma em expansão, percebe quais os resultados do aumento da frota de veículos motorizados em circulação. Enquanto a indústria automobilística comemora recorde de vendas mês a mês, a população perde tempo e saúde em congestionamentos, que também batem recordes. As alternativas mais comuns para combater este problema são as duplicações das marginais, alargamento de ruas e avenidas, construção de pontilhões e minhocões e milhões gastos com obras e mais obras.
O homem, desde o princípio dos tempos, tem o olhar aguçado e curioso sobre as outras formas de vida animal que habitam