o acaso é amigo

o acaso é amigo

Presto meus serviços como design gráfico para o jornal Folha de Mayrink. Ele circula na cidade e região todo sábado, mas é diagramado na sexta-feira.
Toda sexta, portanto, é pra lá queu vou. Enquanto as pessoas normais estão voltando de sua jornada semanal de trabalho, eu viajo. Já perdi eventos e shows maravilhosos, como o do Marcelo Camelo e Apanhador só, só pra ilustrar.
A passagem intermunicipal de Sorocaba a Marinque custa atualmente $3,55. Tenho um local em casa, alguns potes de sorvete, no qual eu e Jô costumamos depositar nossas moedas. Então antes de sair de casa, eu pego o dinheiro contado para a passagem. É notável a felicidade do cobrador (a) quando dou o dinheiro exato do bilhete. Não me custa nada, facilita o trabalho alheio e me deixa feliz. Vejo a maioria das pessoas pagar o embarque com notas grandes. $20, $50, teve um que deu uma nota de $ 100,00 certa vez. Para tirar uma passagem. Penso que a falta de percepção das coisas simples como esta é grande responsável por este mundo de extrema competição em que vivemos, onde as pessoas não pensam, nem minimamente, no próximo. A necessidade individual vem em primeiro, em segundo, em quinto e em último lugar. Não há tempo de pensar a respeito dos outros e do mundo que nos cerca.

Este causo aconteceu na noite da sexta feira, 10 de fevereiro.

Havia terminado meu trabalho eram pouco antes das 10 da noite e lá fui eu correr para o ponto de ônibus para pegar o da hora cheia. Á partir das 7 da noite, este ônibus rareia, é de hora em hora. Se eu perder o das 10, tenho de ficar mofando até as 11 no ponto.

Há algumas coisas que me irritam profundamente: trânsito congestionado, homem sem palavra, mulher surtada e perder tempo. Cozinhar uma hora num ponto de ônibus, numa sala de espera ou onde quer que seja simplesmente me deixa transtornado.

Me despedi e fui em direção ao ponto, bem em cima da hora. Abri a carteira e vi que a nota mais baixa que eu tinha era de $ 20,00. Mesmo correndo o risco de perder o ônibus, para comprovar minha teoria de que felicitar a vida alheia se baseia em coisas extremamente simples, voltei correndo até o escritório do jornal e perguntei a minha chefa se ela podia me trocar o dinheiro. Enquanto trocávamos, ouvi o roncar dum busão passando pela rua, mas ali passam tantos que certamente não seria o meu. E porque não? Porque eu não “merecia” perder o ônibus né? Afinal, voltei ao escritório numa ação que beneficiaria um outro alguém, numa ação exclusivamente altruísta.

Peguei os trocados e corri para o ponto, havia apenas um senhor sentado no banco. Isso é bom sinal, pensei. Perguntei do ônibus para Sorocaba, ele respondeu que tinha ACABADO de passar um. De repente, todo aquele sorriso entusiasta desapareceu do meu rosto:

- O senhor tá brincando né?

- Não…

- Tem certeza????

- Tá sentindo o cheiro da fuligem?

- Sim…

- É dele…

- …….

Emputeci. Simplesmente não acreditei. Era muita burrice! Perdi o ônibus pra facilitar o troco! Onde é que eu tava com a cabeça? Putaqueupariu vou ficar aqui até 11 horas da noite…Que ideia de merdaaaaaaaaaaaa! Otário! Energúmeno! Imbecil!

Os xingamentos duraram até acabarem os estoques.

Maldisse a mim, a vida e o mundo. Toda minha convicção de que fazer o bem é elevar o espírito, todo aquele papo lennonmaccartiniano de que “no fim o amor que vc dá é igual ao amor que vc recebe” é lorota da grossa. Que o conceito de causa e efeito aprendido no budismo, do qual baseio minha vida, pode não funcionar como achei que sim. De repente, tudo aquilo o que mais acreditava perdeu o sentido. A ingenuidade da minha postura me fez chorar de ódio. A todos que conto este causo, quando chego nesta parte da história batem na testa, concordam dizendo: – Você leva essas coisas muito a sério, João! O mundo não é assim! Acorda pra vida!

O tio do ponto já havia embarcado para seu destino. Eu estava só. Ao longe, bem longe, uns dois quarteirões, na avenida, um carro com o pisca alerta ligado tentava ligar o motor. Continuei na minha, afinal, cada um tem os seus próprios problemas. Depois de um tempo, olhei novamente e o carro continuava lá, agora com o pisca alerta desligado. Um homem, possivelmente o condutor, tentava empurrá-lo. Em vão. A avenida é uma reta. Estava deserto. Pela primeira vez, me passou o pensamento de ir ajudá-lo de alguma forma. Fiquei torcendo para que o carro pegasse, assim não precisaria me envolver com a situação. Mas a coisa não ia. Pensamentos como o de que o cara poderia achar que eu iria roubá-lo, sequestrá-lo ou esquartejá-lo. Que eu iria me aproveitar da situação para tirar vantagem de alguma forma. Poderia achar que eu quisesse alguma sacanagem sexual. Ele poderia ser, basicamente, um puta cuzão. E eu não tava afim de ouvir merda aquela hora da noite com aquele humor. Já tinha problemas suficientes.

Ai liguei o botãozinho do “foda-se” e fui em direção ao carro. Aí passou o trem, parei, encostei no poste, o barulho me confundiu e não sabia se a porra do carro tinha pegado ou não. O trem passou, o carro ficou. Continuei caminhando em sua direção. Cheguei próximo, ele abriu o vidro da janela. Era um cara novo, de no máximo 40 anos. Estava sozinho. Perguntei:

- E ai amigo, precisa de uma mão ai?

- Pow cara, não sei o que tá acontecendo. Eu coloquei um pouco de gasolina, não sei se tá faltando. Parou do nada! Tava pensando em jogar ele na gambela ali na frente e ver se ele pega.

- Demorô vâmo ai…

Começamos a empurrar o carro na avenida. A descida ficava próximo ao ponto onde eu esperava o ônibus, a dois quarteirões dali.

- Pra onde vc está indo? Perguntou ele.

- Áh cara, eu não sou daqui, to indo para Sorocaba…

- Áh tudo bem…é que eu pensei que…

- Nem esquenta.

Botamos na descida e ele foi. Deu de mão agradecendo e embarcou na caranga. Sentei no ponto e observei ao longe o carro descendo vagarosamente, sem pegar. Pensei que agora o cara tava realmente fodido, com o carro parado já no final da descida. Não deu certo, mas havia feito a minha parte.

Continuei amaldiçoando a minha situação. Merda de vida.

Uns minutos depois, vejo do outro lado da avenida o dito carro parado. O cara desce, o mantém ligado (claro, de bobo só eu nesta história), atravessa a mão dupla e vem até o ponto de ônibus.

- E aí deu certo? – pergunto

- Deu cara! Ele foi sem pegar até o finzinho da avenida….já tava desesperado..mas quando eu desisti, ele pegou!

- Porra que bom, fico feliz.

- Cara…(de repente ficou pensativo…olhou para baixo…coçou o queixo…respirou fundo e olhou pra mim novamente)..quando eu fiz faculdade, tinha um professor de história que disse uma coisa certa vez da qual eu nunca esqueci…ele disse que você nunca deve sair da sua casa se não for para fazer a diferença na vida de alguém…

Estendeu a mão a mim e disse:

- Parabéns…hoje você fez a diferença na minha vida….

Se despediu, entrou no carro e sumiu no mundo. Fiquei mudo. Sem ação. Não demorou muito, um minuto talvez, começou a chover. Primeiro pouco, depois muito, até virar uma tempestade. O vento a trazia de lado até o meu rosto, saía pelo ladrão das casas e molhava meu tênis, cobrindo a lombada a minha frente. Estava furiosa. Passava das 11 da noite, numa longínqua cidade, molhado, solitário…mas a tormenta chegou um pouco tarde.

Naquele difícil momento, minha alma já estava lavada.

Crítica – Biophilia – Björk

Crítica – Biophilia – Björk

Álbum lançado em 2011 pela cantora islandesa Björk. Já tinha conhecimento sobre seu trabalho desde um bom tempo atrás, ao achar divertido e bizarro seus clipes que sempre passavam na (boa) MTV.
Alguns deles são simplesmente fantásticos, tendo como parceiro em sua maioria o criativo francês Michel Gondry, diretor de filmes sensacionais como o cultuado “Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças” e também o genial “Rebobine por favor”.
Mas nunca, confesso, havia ouvido um álbum inteiro dela, até decidir por uma audição mais apurada de suas músicas neste mais recente disco.
Com uma voz única, estranha, acompanhada de sintetizadores, também estranhos, suas músicas alternam hora um som orgânico, hora eletrônico. As músicas nos lançam na imensidão do universo para logo após nos obrigar a se perder na vastidão de si mesmo. Conexões existentes entre homens e a natureza e também entre os semelhantes, ansiando por uma revolução de pensamento e sentimento em relação ao próximo e também a tudo que nos cerca. Vento gelado no rosto, cristais crescendo sobre nossos pés, galáxias e nebulosas em constante mutação, DNA que carregam lembranças de antepassados e transfere as atuais para a geração futura, vírus que penetram no corpo e formam um simbionte harmônico com seu hospedeiro…tudo isso num emaranhado de barulhos que, ao invés de soarem díspares, fazem muito mais sentido do que podemos perceber numa primeira audição.
Cultivar a paciência para saborear todas as nuances deste álbum é fundamental. Mas o que realmente me levou a escutá-lo foi uma maravilhosa coincidência.
Em 2011, enquanto lia e pesquisava para fazer o meu projeto de Educação Ambiental para o mestrado em Sustentabilidade, topei com o nome de Edward Osborne Wilson, biólogo e entomologista (ciência que estuda os insetos) americano conhecido por seu trabalho com ecologia, evolução e sociobiologia.
Ele cunhou um termo do qual nunca tinha ouvido falar, mas que de imediato me causou grande impacto e seu sentido a mim, absolutamente inquestionável: Biofilia.
“Biofilia” é definida pelo autor como a junção de “philia” (amor) e “bio” (vida), podendo assim ser entendida como “a tendência natural que há nos seres humanos para amar todas as formas de vida”.
Todos temos a tendência universal de amar todo e qualquer ser vivo. Nos padecemos com o sofrimento alheio, de quem ou do que quer que seja. Embora nos deparemos diariamente com casos e situações que colocam em xeque esta característica inerente aos seres humanos, ela ainda permanece entre nós. Lembro-me agora daquele filme “Equilibrium”, com o Christian “Batman” Bale, em que a raça humana foi forçada a suprimir seus sentimentos, agindo feito máquinas insensíveis. Será que esta ficção científica é realmente tão absurda? Será que já não estamos vivendo nesta absurda realidade sem nos darmos conta?
Que continuemos a perceber o mal que assola a humanidade, isso é importante, mas sem perder a pureza de admirar belas paisagens, dignas ações e maravilhosas obras de arte. Biophilia, certamente, é uma delas.

Cotação:

 

 

Curta um clipe feito por fãs da música “Vírus”, uma das mais belas do disco:

Crítica – Melancholia

Crítica – Melancholia

Filme mais recente do cultuado diretor dinamarquês Lars Von Trier. Conta a história de uma jovem (Kirsten Durst) que, no dia de seu casamento, parece não se enquadrar em tudo o que acontece ao redor. Acompanhamos sua apatia e angústia frente a tudo isso, sem saber ao certo o que a aflige. O contraste da sua inabalável felicidade até a total entrega a depressão, mal que ela luta para superar. Paralelamente a isso, um planeta chamado Melancholia se aproxima da Terra, causando pânico em sua irmã e excitação em seu rico cunhado e sobrinho. Mas o quanto a iminente aproximação deste planeta vai mexer com a personalidade de cada um?
Tentar escrever uma crítica sobre os filmes de Lars Von Trier é realmente difícil. Diretor de filmes como “Dançando no escuro”, “Anticristo” e “Dogville”, seus filmes fogem ao convencional. Não há um começo, meio e fim bem definidos, assim como a motivação que levou os personagens a ser o que são.
Seus filmes são compostos por diversas lacunas, aberto a sentimentos e interpretações individuais. Durante o festival de Cannes deste ano, o diretor fez uma piada que não deu certo, foi tentando consertá-la e a coisa foi piorando, até que terminou da pior forma possível.
Ele foi expulso do festival e minou qualquer possibilidade do filme concorrer a Palma de Ouro, que ficou com o “A Árvore da Vida”, do Terrence Malick.
Foi uma piada de extremo mal gosto, mas foi uma piada. Seus filmes por si a desmentem já que são em grande parte uma crítica ao autoritarismo, a repressão e ao fascismo.
Melancholia é um filme visualmente muito bonito. Faz com que você obrigatoriamente cultive a paciência. É intenso, dramático e também assustador. A última cena faz todo esse esforço valer a pena. Tem duas horas e cinco minutos de duração, e o título não poderia ser mais adequado. Embora seja o nome do planeta em rota de colisão com a Terra, melancólicos é como ficamos durante e após o término da película.

Cotação:

Veja abaixo o significado literal de “vergonha alheia”. Acompanhe o desespero da atriz na coletiva de imprensa citada:

Crítica – A Ilha do Medo

Crítica – A Ilha do Medo

Todos que comentaram algo deste filme comigo diziam: “Nossa demais!” “Surpreendente!” “Você nunca vai imaginar o final!” Os comentários que li na internet também enalteciam a obra de Martin Scorsese: Fantástico! Obra prima! Melhor filme dele em tempos!
Muito bem, me rendi a tudo e a todos e o assisti recentemente. Gostei da fotografia, principalmente as externas. A trilha dá o climão de suspense. O filme começa bem, mas o meio é arrastado e eu já estava prevendo o final: ou é uma conspiração contra o personagem do Di Caprio ou ele é o assassino pirado. O fato dele aparecer acendendo um fósforo no pôster já entregava tudo. Como já vimos em diversos outros filmes.
Acontece que o final é realmente surpreendente. É uma mistura dos dois, metade de um + metade do outro. Mas…não posso deixar de dizer que, pra mim, há uma falha gigantesca no roteiro que mata o filme. Procurei a respeito mas não achei ninguém falando absolutamente nada sobre isso. Então das duas uma: ou eu não entendi o filme, ou eu estou ficando chato. Ou, assim como o final, é uma mistura das duas coisas.
Vamos lá, se você não assistiu ao filme e ainda quer ver, não leia.
No diálogo final, entre o personagem do Di Caprio e Mark Ruffalo, ele acende um cigarro e diz:
“- Este lugar me faz pensar: é melhor viver como um monstro ou morrer como um homem bom?”
Ele levanta, vai em direção aos médicos que gostavam de fritar cérebros através da lobotomia e o filme acaba com a incógnita:
Ele regrediu no tratamento ou não?
Ai vem a questão: se ele regrediu, porque foi em direção aos médicos que o levariam ao temido farol tão calmamente? Não faria sentido algum.
Se ele não regrediu e fingiu ter voltado a maluquice, que foi o que eu entendi, ele adquiriu consciência do que havia feito mas preferiu fazer a lobotomia para esquecer, e assim “morrer como um homem bom”. Mas ai, voltamos na questão: porque ele foi em direção aos médicos?  Isso é uma prova irrefutável de que o tratamento havia dado certo.  Logo, não haveria necessidade da lobotomia.
Porque o psiquiatra não interveio?
Se o Di Caprio desse um chilique, fingindo ainda ser um agente federal no meio de uma investigação, o psiquiatra poderia perguntar, calmamente:
- Áh é? Puxa…então…me diz uma coisa, agente federal, onde você está indo com esses homens fritadores de cérebro?
Ao qual o mesmo só poderia responder:
- Áh…to indo ali fazer uma lavagem cerebral.
Ôh Scorsese, que incoerência absurda é a desse final meu filho? Contrata um roteirista que não subjuga o intelecto alheio, por favor. Obrigado.
Se alguém tem algo a acrescentar, fique a vontade nos comentários.
Cotação:

O que é ver de verdade?

O que é ver de verdade?

Flagrante cotidiano: menina curiosa sobre o cão mas a mãe a puxa apressada pela mão. Foto: JP Rodrigues

Quando criei este blog, lá no dia 25 de setembro de 2009, meu intuito era compartilhar neste espaço minha visão de mundo. Visão de mundo que implica na observação do cotidiano, interpretações de conversas, situações, sentimentos e sensações. O nome do blog, inclusive, faz menção a isso.
Acontece que a vida não é, nem deve ser, programada. Assim sendo, depois que me comprometi a voltar a publicar meus artigos de Educação Ambiental, isso acabou virando assunto predominante aqui no blog. Críticas de filmes? Pouco. Crônicas do dia a dia? Quase nada. Reflexões mundanas? Nulas. Praticamente saíram de cena. Escrevi que iria publicar os artigos ambientais em outros blogs e sites, e é exatamente o que tenho feito. Tenho como parceiros os sites da ANAGEA e tbm o Esse Tal Meio Ambiente, que me proporcionam alcançar lugares e pessoas que talvez não seria possível de outra forma. Os resultados que tenho obtido à partir deles são fantásticos. Os questionamentos estão se perpetuando por sí só, cumprindo sua função de fazer refletir quem a eles interessa.  Meus artigos já foram republicados em outros sites, jornais, revistas e até mesmo viraram um livro! É pois é. Por isso, novamente me é exigido um novo passo que culmina involuntariamente numa nova etapa.
Este blog sofrerá alterações. Voltarei a publicar o que de fato ele deve ter. Quero que ele volte a ser descompromissado, crítico sim…mas leve, dinâmico e divertido. Que proporcione descontração e estampe sorrisos em quem por aqui passar.
Pretendo abastecer aqui semanal ou quinzenalmente, dependendo da disposição. Vocês já podem notar a mudança no layout, menos sisudo e mais colorido. Há também agora as opções de “Compartilhar” as crônicas no Twitter e no Facebook. Alguns artigos sobre meio ambiente eventualmente darão o ar da graça por aqui.

Mas a notícia mais importante referente as mudanças que estou aqui para dar-lhes é que, depois de muito pensar/fazer/adiar, senti a necessidade de expandir os artigos ambientais de uma forma mais clara. Faltava uma raiz, como uma árvore, que dela pudesse vir os frutos. Depois de dois anos tendo um domínio sem usá-lo, pagando por isso e sem tempo para colocá-lo em prática, decidi finalmente criar o meu próprio site.
Á partir de agora, sou o idealizador e editor chefe do site “Ecolhares”. Um filhote que nasce ainda desprovido de penas, mas que em breve poderá alçar longos vôos, que ultrapassem fronteiras, ideologias, partidos políticos e interesses pessoais.
Que sirva com o único propósito de trazer a reflexão e proporcionar mudanças de atitudes sobre o meio ambiente e a sociedade na qual estamos, queiramos ou não, inseridos.
Você está convidado a fazer parte disto. Colabore com esse novo canal de informação, reflexão, discussão e questionamentos.

Espero vocês por lá. E por aqui também.
Um grande a caloroso abraço!

Att.
João Paulo Rodrigues

Roda mundo roda gigante

Roda mundo roda gigante

Estamos em 2011, ano que antecede o tão falado 2012, que é cercado de mistério, misticismo e incertezas.
Alguns dizem que 2012 é o ano do fim do mundo, outros de que o mundo vai acabar sim, mas ressurgirá melhor, outros ainda sugerem não passar de mera superstição.
Independe do que for a verdade – e espero estar vivo até lá pra descobrir – é inegável que o mundo está passando por profundas mudanças.
A degradação predatória dos recursos naturais do planeta, evidentemente, tem papel importante nesta história.  Mas não é só isso que demonstra que “há algo de podre no reino da Dinamarca”, como já diria Hamlet.
No continente africano, os povos foram as ruas e derrubaram ditadores na Tunísia e no Egito. Quem ainda está na corda bamba é o presidente da Líbia, Muamar  Kadaf, o que faz com que o país enfrente uma violenta guerra civil.
Em seguida foi a vez do todo poderoso Estados Unidos, maior potência econômica do mundo, acostumados a salvar o planeta em guerras contra ets, por muito pouco não ruir. A crise americana é uma das maiores já enfrentadas pelo país e abalos na economia ainda são sentidos em todo o mundo.
Agora é a vez de Londres ferver. Durante cinco dias uma onda de anarquia se alastrou por várias cidades inglesas, aparentemente sem objetivo específico, espalhando medo e destruição.
O que podemos perceber em comum nas situações descritas?
Nos países do norte da África, as ditaduras derrubadas duraram quase meio século.
Os Estados Unidos é considerado o país mais poderoso do planeta. Passa por cima de tudo e todos para alcançar seus objetivos – nem a ONU impediu a invasão ao Iraque. Investe bilhões em equipamento bélico e tem a sua cultura e padrão de vida insustentáveis invejados por diversos países ao redor do globo. Uma nação “inabalável”.
Londres é uma cidade pacata, objetivo de vários imigrantes por ser um lugar de muitas oportunidades. Um dos poucos países onde ainda há a monarquia, a Inglaterra tem o seu charme por serem pontuais, “Sirs” e educados. Aí vem esse alvoroço todo e mostra que as coisas não são bem assim.
Vale mencionar também a greve de fome do indiano Anna Hazare, que vem mobilizando milhares de pessoas na Índia em protesto contra a crescente corrupção no país e também as manifestações dos estudantes no Chile, que estão a quase dois meses protestando contra o descaso do governo chileno com a educação.
Em todas essas situações, as redes sociais na internet foram decisivas para organizar as ações e mobilizar esse grande número de pessoas.
Situações até então inimagináveis, em países distintos, que de repente revelam ao mundo problemas varridos para debaixo do tapete. O mundo dá sinais de que as coisas estão mudando, seja através da tecnologia, que faz com que pessoas comuns se organizem e se façam ouvidas, ou sólidas economias que dão sinais de desgastes.
“Quem detém a informação detém o poder” disse o pensador chinês Sun Tzu – não por acaso autor do livro “A Arte da Guerra”.  E agora que ela está disponível a todos, a questão é: O que fazer com ela?  Dia desses um amigo me perguntou se eu acredito que a humanidade tem solução. Eu respondi que sim, mas somente através da nossa mudança em relação ao que nos cerca. A mobilização popular é a raiz fundamental para alcançarmos este objetivo. Que tal unirmo-nos, então, em prol do bem e da justiça?

JP Rodrigues é Gestor e Educador Ambiental em Sorocaba/SP
Artigo publicado em jornais e no site da ANAGEA.
*Ilustração por LVHEROS.

Tenho uma pressa danada não paro pra nada

Tenho uma pressa danada não paro pra nada

o lindíssimo ipê amarelo (Tabebuia umbellata), mostrando aos desatentos a beleza de suas flores. Foto: JP Rodrigues

Nunca houve na história da humanidade uma sociedade tão conectada e dinâmica como a atual. Muito, evidentemente, por conta da extraordinária (r)evolução tecnológica. Qualquer fato acontecido mesmo nos longínquos países escandinavos torna-se manchete em telejornais e homepages de sites ao redor do mundo praticamente de forma imediata. Ao mesmo tempo, pode ser que nossos vizinhos, familiares e amigos próximos estejam em momentos difíceis, precisando de incentivo, de um bom bate papo e sequer notamos.
Essa rapidez e imediatismo da sociedade atual, associada a impaciência e intolerância que impera fruto dela, nos faz demasiadamente distraídos e arrogantes. Vivemos nas ruidosas cidades, com seus ensurdecedores barulhos de carros, gritos, sons, propagandas e motos estalando imbecilmente seus escapamentos.
Temos muita pressa. Pressa pra sair, pra chegar, pra alcançar … não admiramos mais as coisas ao redor, seja lá o que forem. Para dar conta da demanda diária, o cidadão deve percorrer a distância entre o ponto “A” e o “B” da forma mais rápida possível, sem “distrações”.
Mas, ainda assim, a natureza nos desafia a observá-la. Desafia-nos a sair do cotidiano e a nos confrontar com manifestações de imensa beleza, mesmo que por breves momentos. Pensando sobre isso, essa semana conversava com a minha namorada tomando um café da tarde em casa, quando começamos a ouvir um canto de pássaro diferente. Ao sair, observando, nos deparamos com uma sabiá, não identificada, pousada no poste em frente a casa, louvando o sol que se punha e, talvez, agradecendo por mais um dia que se ia. Pode ser que ela faça isso todos os dias, da mesma forma, no mesmo local e horário, mas nunca havíamos nos dado conta.
Nesta época fria de inverno, contrariando as demais árvores que florescem em outras estações, os ipês estão a florir. Árvore símbolo do Brasil – sim, não é o Pau Brasil -  inicia sua florada pelos rosas e roxos, depois os amarelos e por fim, os brancos. Perdem toda a sua folhagem, ficando somente com suas magníficas e levemente perfumadas flores. É um espetáculo que deve ser admirado. O ipê que ilustra este artigo é o amarelo, cujo nome científico é “tabebuia umbellata”, localizado em Sorocaba, num dos cruzamentos de maior movimento do centro e em frente a uma padaria que é nacionalmente conhecida por sua saborosa coxinha.
Pessoas apressadas, aturdidas com seus problemas, dores de cabeça e celulares, podem nem se dar conta. Pena.
Ás vezes, precisamos de um chacoalhão da vida para nos obrigar a enxergar coisas tão importantes que estão presentes em nosso dia a dia, mas que nos passam despercebidas.
Convido você, leitor, a sempre que possível desacelerar o ritmo. Tire um tempo para abstrair, observar e viver não atrelado ao  relógio. Despertar para as belezas diárias, mesmo que tenha de procurá-las. Elas estão lá, basta querer. A saúde e bem estar humana está intimamente atrelado a natureza, tudo o que precisamos nos vêm dela. Tenha fé também naquilo o que rege a sintonia das cores e formas do universo. Aquilo que nos toca a alma é o que, de fato, nos transforma.
Seja uma sabiá que canta, um alguém que chama ou um ipê que floresce.

Artigo publicado em jornais e no site da “ANAGEA“.
Jp Rodrigues é Gestor e Educador Ambiental em Sorocaba/SP

O resgate das magrelas

O resgate das magrelas

Caos. Quem mora numa grande cidade, ou uma em expansão, percebe quais os resultados do aumento da frota de veículos motorizados em circulação. Enquanto a indústria automobilística comemora recorde de vendas mês a mês, a população perde tempo e saúde em congestionamentos, que também batem recordes. As alternativas mais comuns para combater este problema são as duplicações das marginais, alargamento de ruas e avenidas, construção de pontilhões e minhocões e milhões gastos com obras e mais obras.
Podemos perceber que essa postura resolve o problema duma forma imediata, mas torna-se obsoleto se pensarmos de forma inteligente – já que o número de carros não pára de crescer. Sabemos também que a fuligem liberada pelos automóveis é um dos principais responsáveis pela poluição das grandes cidades e doenças respiratórias. Mas como resolver esse problema duma forma definitiva?
A meu ver o primeiro passo é diminuir a dependência por esses meios de transporte. Chegamos ao absurdo de ir a padaria, a banca de jornal, a farmácia localizadas a poucas quadras de nossas casas de carro! Tô mentindo?
Você tem bicicleta? É, lembra dela? Talvez esteja lá juntando pó no porão. O transporte público de bicicletas é uma tendência na Europa e aos poucos vai ganhando seu espaço mundo afora.
Funciona assim: Há os bicicletários em locais estratégicos – como campus de universidades e estações de metrô – e o usuário pode “alugar” uma delas, ir até o local almejado e devolvê-la na próxima estação. Ou até mesmo levá-las para casa e devolve-las no dia seguinte. A taxa cobrada é simbólica.  O resultado disso é a diminuição de 20% na frota de automóveis em circulação.
Agora vamos pensar no Brasil. Prefeitos ainda enxergam a bicicleta somente como objeto de lazer. Ciclovias são construídas apenas para passeio, sem a preocupação em interligar bairros e pontos estratégicos, permitindo ao ciclista usufruí-la como meio de transporte.
Ainda pensando em Brasil. Em fevereiro deste ano um ser estúpido acelerou seu carro e atropelou vários ciclistas em Porto Alegre. Por milagre ninguém se feriu com gravidade. Já não podemos dizer o mesmo do empresário e ciclista Antonio Bertolucci, de 68 anos, que morreu no dia 14 de junho após ser atropelado por um ônibus na grande e caótica São Paulo.
No artigo 201 do Código de Trânsito Brasileiro consta que “nenhum veículo automotor poderá ultrapassar ciclistas se estiver a menos de 1,5 metros de sua lateral.” É uma infração considerada média e penalizada com multa. No caso, o preço por tirar um carro de circulação e colaborar com a dinâmica da cidade e qualidade de vida das pessoas custou caro demais para o seu Antonio.
A bicicleta é considerada um dos meios de transporte mais democrático, ágil, saudável e sustentável que existe. Uma bicicleta em movimento é um carro a menos nas ruas. Pratique esta prazerosa atividade e respeite ao topar com algum ciclista. Reflita no bem que ele está fazendo para todos inclusive a você. Cidadania e respeito estão aí para serem praticados diariamente.

JP Rodrigues é Gestor e Educador Ambiental em Sorocaba/SP
Artigo publicado em jornais e nos sites da “ANAGEA” e “Esse Tal Meio Ambiente“.

Tico mia não, late!

Tico mia não, late!

O homem, desde o princípio dos tempos, tem o olhar aguçado e curioso sobre as outras formas de vida animal que habitam
o planeta. As primeiras pinturas rupestres em cavernas mostram o fascínio por estes seres.  O progresso da humanidade está intrinsecamente ligado a presença dos animais. O consumo da carne como alimento, o uso como meio de transporte, arma de guerra e tração para realizar trabalhos, conceito esse intimamente atrelado a invenção da roda.
Assim como os sistemas astrológicos, grande parte das simbologias e metáforas tem como protagonista os animais: a coruja é conhecida como símbolo de sabedoria, a raposa da astúcia, o touro da virilidade etc. Quando o homem deixou de ser nômade, começou a domesticar animais selvagens. Com a convivência entre ambos, chegamos até os dias atuais. E muito ainda se maltrata, seja no abate com sofrimento desnecessário, o uso de animais em testes na indústria de cosméticos, espetáculos grotescos onde suas mortes são aplaudidas chegando até o mau trato e descaso com animais domésticos, que são jogados doentes a rua e a própria sorte. A denúncia de maus-tratos é legitimada pelo Art. 32, da Lei Federal nº. 9.605 de 1998  - Lei de Crimes Ambientais, onde consta: “É considerado crime praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, doméstico ou domesticados, nativos ou exóticos.” Dentre os maus-tratos mais comuns estão o abandono, o envenenamento e a agressão física, covarde e exagerada.
Quem ai nunca teve um gatinho ou um cachorro? Áh, que felicidade! Quando chegamos em casa, cansados, quem está lá para nos alegrar abanando o rabo e pulando em nossos colos? Ou mesmo ronronando e se entrelaçando em nossas pernas? Tive dois gatos quando pequeno. Apareceram em casa, dois irmãos, macho e fêmea, rajados preto e branco. Um se chamava Corin e a outra, Tiana. Sim, pode juntar os dois nomes e rir com a piadinha infantil.
No final do ano passado, minha namorada voltava do trabalho e avistou um cachorrinho ser atropelado na Raposo Tavares por um caminhão. Depois de se arrastar até um ponto de ônibus próximo, ela o resgatou e o trouxe para casa para cuidar dele até que melhorasse.
- Depois você vai levar esse bicho daqui! – bradava eu, insensível.
Ela, pacientemente, concordava.
Ele chegou febril, não andava e nada comia. Com o tempo foi melhorando, passou a andar e a comer muito bem. Com o tempo foi crescendo também uma grande amizade entre nós. Tico, como passou a ser chamado, tornou-se a alegria da casa. Recuperou-se
totalmente, a não ser por ter ficado com a coluna ligeiramente torta, o que para ele nada importava. Nem para nós.
Cachorro de rua, após voltar a perder o medo, lá era a sua felicidade. A qualquer sinal de que passearíamos com ele, rodopiava e pulava feito um canguru louco.
No dia 30 de junho deste ano, numa vacilada do portão, Tico saiu. Embora já tivesse feito isso outras vezes, desta vez ele não voltou. Morreu atropelado na frente da casa por alguém, que não sei quem, que sequer parou. Como se Tico fosse, sei lá, mais um quebra molas. Este que vos fala, viril e insensível, de repente se viu chorando feito uma criança.
Gandhi disse que a grandeza de uma nação pode ser julgada pelo modo como tratam seus animais. Ainda temos muito o que aprender em relação a isso. Siga a luz, querido Tico!

Artigo publicado em jornais e nos sites ANAGEA e Esse Tal Meio Ambiente?
JP Rodrigues é Gestor e Educador Ambiental em Sorocaba/SP

O inverno do meu tempo

O inverno do meu tempo

Entramos oficialmente na estação fria do ano, o inverno. Hora de tirar do guarda roupa as blusas, jaquetas e moletons, mas não sem antes dar uma bela lavada para tirar o cheiro de guardado.
Uma das características desta melancólica época do ano é a escassez das chuvas, que consequentemente diminui a umidade do ar deixando-o mais seco.
Pode preparar o lenço porque vem ai a tosse, inflamação na garganta, irritação nos olhos, coriza e o agravamento das doenças cardiorrespiratórias. Prepare também a paciência para enfrentar filas enormes nos hospitais públicos para fazer inalação. Principalmente idosos e crianças. Bem, eu nem com isso posso contar já que moro em Sorocaba, lugar onde alguns médicos ao invés de honrar o juramento de Hipócrates, são corruptos e hipócritas.
A dica é beber muito líquido, colocar bacia com água e espalhar toalhas úmidas nos cantos da casa. Não resolve, mas ajuda. O que nos resta é se adaptar.
Vão começar as campanhas contra as queimadas. As grandes vilãs são as bitucas de cigarro, a queima de lixo e a “limpeza” de terrenos baldios.
Qualquer matéria em combustão produz o famigerado CO2. O Brasil é o 4º país que mais emite gás carbônico do mundo e mais de 75% dele, segundo o IBGE, é proveniente das queimadas. Mas isso certamente vai aumentar se o novo código florestal for aprovado, não se preocupe.
Junte isso a fumaça dos veículos, a massa de ar fria que não deixa os poluentes se dissiparem e pronto, o caos na nossa saúde está instaurado. Não podemos “escolher” o ar que respiramos. Algo em combustão, mesmo longe da sua casa, certamente pode influenciar também o ar que você e sua família respiram.
Na TV vai começar agora, bota lá no Datena, agora em novo canal, vão-se as avalanches e casas sendo soterradas pelas enchentes e entram os incêndios devastando áreas de floresta e destruindo residências nas proximidades. Os prejuízos causados por eles no meio ambiente são incalculáveis: prejudicam o solo, ameaçam a biodiversidade, matam pássaros, abelhas e morcegos, responsáveis pela transferência de grãos de pólen e sementes de uma árvore à outra, além de diversos outros animais e plantas nativas.
Acredito que você, que lê este artigo e tem uma mente coerente com a realidade dos fatos não comete esse tipo de atitude. Quem as comete certamente não o lerá. Se esse cidadão ler algo, eu disse “se”, vai gastar seus neurônios lendo…sei lá, fofocas do meio televiso talvez, não sei. Então sugiro a você, leitor, preocupado com a sua saúde e da sua família, a denunciar qualquer foco de incêndio. Queimada é crime! É sim, vê lá, ta na lei. Então, não se omita! É nosso dever como cidadão fazer jus aos nossos direitos. Disse certa vez o grande líder humanista Martin Luther King: “O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética…o que me preocupa é o silêncio dos bons.”
Não admito ter a saúde da minha família prejudicada por ninguém. E você?

Artigo publicado em jornais e nos sites da “ANAGEA” e “Esse Tal Meio Ambiente“.

JP Rodrigues é Gestor e Educador Ambiental em Sorocaba