“Oito horas de viagem… oito horas de viagem… oito horas de viagem… oito horas de…”
Pelo que pode ser percebido no parágrafo acima, a única coisa que me impedia de passar uma temporada em Londrina era, claro, a coragem!
Oito oras dentro dum busão? Mas…e se me desse ânsia? Dor de barriga? Dor de cabeça? Gases? Terei de me segurar durante todo este tempo, até meu (int)destino final?
Bom, lá vamos nós. Comer bem antes de ir, levar barrinha de cereais, uma maça e duas garrafinhas d’agua. Viajar durante a madrugada, claro! Vou dormindo! Beleza!
Já no ônibus, crianças de colo! Com casal de jovens que estava no banco a minha frente. A criança chora, a mãe acende a luz, o pai pega a fralda no maleiro. Fralda? Deus do céu. Trocam ali mesmo, rapidinho. Nem fede. Mas aí coloca num saco plástico e pendura num ganchinho. Aquilo balançava feito relógio cuco. Sim, um leve aroma fecal paira no ar.
A mulher atrás ligou o ar condicionado. Arrumou-o duma forma que ventava na minha cabeça e desmanchava o penteado. Os piolhos suspeito esquiaram na careca.
Banco incômodo, não há posição que dê para dormir. Opa que que é isso? Quase chegando ao destino, achei sem querer um compartimento na poltrona da frente para esticar os pés. Merda!
Chegando em Londrina, peguei um Táxi. Chego na pousada. Quanto? $20? Pago. Ele vai. Dona da pousada diz que dava pra fazer em $10. Dane-se. Durmo.
Mais tarde, compras num supermercado. Ao passar pelo caixa, não pediram meu CPF como de costume. Ué!
- Ei você ñ vai me emitir a nota…(pensando) fiscal…(o raciocínio tomando forma) paulistatemtrocopracinquenta?
Admiro o Lago Igapó. O pôr do Sol lá é lindo me falaram. Mas tava nublado. Tudo bem. Não tenho guia. Tranqüilo. Veio a noite. Cama não como a minha lá de casa. Leio. Escrevo. Apago.
Dia seguinte fui andar de ônibus dar um role no centro. Lá é tudo perto, rodoviária, restaurante, lan house, shopping, bar e Av. Higienópolis. Explica:
- Você pega ele indo pro Terminal Central deste lado de cá da ACM…
- De cá? (gesticulando)
- De cá, de cá…ele vem daqui e vira assim e …
- Vira assim?
- Assim cacete, assim!
- Ah pódexá queu me viro…
Antes de chegar no ponto, confirmo com um senhorzinho de bicicleta:
- Deixa ver ele vem daqui, vira assim…alí em cima…é, é esse ponto aqui mesmo.
O ônibus chega ligêro. Pergunto ainda uma vez mais ao cobrador que jogava no celular:
- Hum-hum – sem desgrudar os olhos do aparelho.
Fiquei abismado com o valor da passagem: $2,10. E tem baldeação via terminal. Dá pra ir a qualquer lugar da cidade pagando apenas o unitário. Fica aí o registro: Sorocaba tem uma das passagens de ônibus mais caras do país. E o serviço (daqui) deixa a desejar.
Chega um ponto, depois de algumas voltas, todos os cinco passageiros descem. Era alguma coisa da Agricultura, não é ponto final. Permaneço e só.
Chego ao Terminal. Que lugar chinfrim. Cercado de mato, mato mesmo, largado, pelos lados. Desci. Fui ao guichê:
- Como faço pra chegar na rodoviária?
- Fácil fácil, você pega este ônibus aqui (apontando) e desce no Terminal Central e depois pega o 109…
- Mas não é aqui o Terminal Central?
- Não não…
Volto. Pego o mesmo ônibus que vim. Passei pelo mesmo ponto que peguei. Vi o ponto em frente, do outro lado da rua, onde deveria tê-lo pego da primeira vez.
No caminho passo em frente a um motel chamado “5 Coelhinhos”, não me seguro e comento com a moça ao lado:
- Neste motel aí é terminantemente proibido o uso de preservativos!!
Ganhei em resposta um olhar desconfiado, sobrancelha erguida e lugar vago a meu lado.
Na Rodoviária, comprei a passagem para o ônibus das 23:05:
- Como faço pra chegar no centro a pé?
Após explicação básica: “Sai por aqui, sobe por lá, dá a volta na praça e segue o fluxo” cheguei no centro.
Cidade bacana, movimentada. Calçadão, ando a pé. Pessoas apressadas, como aqui. Mulheres bonitas, mais que aqui.
Tem algum lixo no chão sim. Acho que não muito, mas tem. Vi uma mulher jogando. Um calor infernal. Lei anti-fumo em ambientes fechados não respeitado. Bela arborização urbana, mas muitas podas ilegais. Motoristas apressados e camisetas do Corinthians em caras desdentados.
Exceto pela “bela arborização urbana”, todo o resto me fez sentir em casa!
Volto pra pousada, ainda há tempo para mais um banho e rápida refeição. Hora de ir, vejo o horário do único ônibus que passa pelo bairro, aquele lá que peguei errado, num papel deplorável e ininteligível colado a durex na porta dum armário de cozinha. É de hora em hora. 21:45. É esse!
Despeço-me e agradeço a todos. Gostei muito do lugar e das pessoas do lugar. E dos bichos também. Aconchegante e afetuoso. Embora tenha sido um hospital psiquiátrico a um tempo atrás. Quando Lourdes começou a me contar estórias cavernosas, já tava picando a mula. Ainda bem!
Mochila nas costas e agora sim, no ponto certo. Do lado de cá de quem vem da pousada. Ninguém nele, estou só, nem na rua, escuro. Vejo um papel grudado na trave do ponto com os horários. Fui confirmar. O de 21:45 saia do Terminal sim, mas do Central! Caralho! O próximo que ia pra lá era só 22:18! Será dá tempo?
Mano, pensa não. Caminhada! Em meia hora tá na Duque de Caxias, ali passa mais ônibus. Anda, anda, aperta o passo, mochila pesada, olha a hora, 15 prás 10, vâmo que vâmo. Ninguém durante o percurso. Ninguém durante todo o percurso! Chego ao ponto, tem um senhor. Estou em bicas.
- Qualquer ônibus daqui vai pro Terminal Central? – enxugando a testa com as mãos e limpando na bermuda.
- Sim.
- Brigadão!
Dá cinco minutos, chega um. Nem vejo qual. Não tem cobrador. Pago ao motorista. Vai subindo a Duque, olho o relógio, 10 horas. Chega lá em cima na Juscelino, ele desce! Desce? Não! O outro subiu! O Terminal fica pra lá!
Calma, calma, é só um itinerário diferente. Vários caminhos convergem no mesmo lugar. Tranqüilo.
A certa altura, reconheci. Ta indo bem. Chego no Terminal 10:15. Espero o 109 – Rodoviária.
10:25 nada.
10:40 nada.
Pergunto pro tiozinho.
- Tem um quinze pras onze!
Ele chega, entrei. Saiu. Cheguei: 5 pras 23:00. Corro plataforma 51. Uma mijadinha básica no banheiro, lavo as mãos. Fome! Muita! Caracas não jantei…
Comer salgadinho de rodoviária? Hum…sei não. Qual outra opção? Nenhuma:
- Uma coxinha de carne e uma coca-cola por favor.
Engulo. Ensopada de óleo. Coca trincando! Tomei rápido, doeu o olho. Fui pagar. Três a minha frente.
23:00.
Mulher vai digitar senha do cartão de crédito.
Erra.
De novo.
Erra.
Porra digita direito essa merda!
Próximo deixa cair o canudinho da água. Pede outro. A caixa procura. Acha. Dá. Xau!
Minha vez, vai passar comandas que não tinham sido lidas:
- Um minutinho só, ta?
- É que tem o horário do ônib…
- É rápido!
Pronto. Agora vem um bêbado, pede isqueiro. Ela dá. Ele acende ali mesmo. Não pode ô filha da puta! Devolve. Faz uma graça sem graça pra cacete. Xau!
Paguei e corro pro embarque:
- Tem de preencher esses dados aqui…
Putz no crêo!
- Tem caneta?
- Ali no balcão – e fecha o bagageiro.
Caneta num funciona. Porra! Cadê outra? Quebrada? Cadê? Cabô!
- Tó pega a minha – diz o cobrador.
Ônibus dá a partida.
Nome, RG, CPF, Poltrona, Horário, Saida, Destino, motivo da viagem…blá blá blá tudo de qualquer jeito.
Entro no ônibus, ajeito a mochila no maleiro, me acomodo na poltrona, apoio os pés (ah moleque!) e relaxo.
Sorocaba aí vou eu!
Só me faltam, agora, mais oito horas de viagem.
E torcer pela boa procedência da coxinha…